segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

" PALAVRÕES" - Trabalhar termos pejorativos na sala de aula: reflexão para valorizar e fortalecer as relações humanas.

Numa das turmas de ensino fundamental séries/anos Iniciais em que trabalhei, percebi o grande uso dos palavrões entre os alunos e isso estava trazendo a violência para a sala de aula, porque as crianças estavam se sentindo insultadas, levando-os a defensiva e consequentemente à defesa violenta. Num dia, parei tudo e tivemos uma conversa franca, expliquei a história dos palavrões, dando alguns significados, tirando dúvidas. Muitos não sabiam o que estavam dizendo. Falamos sobre o que acarretava xingar a mãe do outro; relacionar a cor de uma pessoa com algo pejorativo; ou porque deixava um colega tão triste ao ouvir de forma grosseira que tinha dificuldades para aprender recebendo nomenclaturas horripilantes, entre outros exemplos.

Foi muito difícil falar sobre esse assunto, porque também preocupei-me com os pais, que poderiam não compreender bem a proposta. Falar sobre algo velado, um tabu, é sempre muito difícil. Mas do jeito que a coisa ia... eu precisava tomar uma atitude como educadora. O resultado foi surpreendente, acabei por fazer um trabalho interdisciplinar (português, relações humanas/religião, ciências, história, temas transversais). Não ouvia mais palavrões na sala de aula e quando saia algum "sem querer", logo pediam desculpas, afinal é a força do hábito. A turma começou a se policiar e exigir respeito mútuo. Isso foi fantástico para mim! Que resultado! Isso tudo, a partir de um diálogo e que aparentemente, fugia do conteúdo programático, mas com toda certeza, não fugia  do contexto do currículo escolar.

Hoje, minha preocupação aumentou, pois ao observar a nova novela das nove, o palavrão estava correndo solto. Na sala de aula explico que devemos valorizar nossa língua e respeitar as pessoas; na televisão reforça tudo ao contrário. Fica realmente difícil!

Por isso, postei aqui, logo abaixo, um projeto muito legal de uma escola que trabalhou com essa questão. Eu não desenvolvi esse trabalho na minha sala de aula (desta forma), mas achei interessante deixar disponível como uma sugestão para iniciar um trabalho sobre esse tema. Espero que esta abordagem o leve a uma reflexão e a uma ação para que nos leve a diminuir a discriminação, valorizando e fortalecendo as relações humanas.



ESCOLA ESTADUAL AMÉRICA SARMENTO RIBEIRO
PROJETO DE INTERVENÇÃO
TEMA: PALAVRÃO – OBSCENIDADE OU CONTEÚDO ESCOLAR?



APRESENTAÇÃO

O uso de palavrões por alunos em nossa escola é um fato comum, o que nos alerta sobre a necessidade de fazer um estudo sobre os aspectos psíquicos e sociais que estão relacionados ao emprego do palavrão. Entendemos que o desafio não se trata apenas de trabalhar o significado das palavras. É necessário vencer o constrangimento e o preconceito ao discutir esse assunto, pois só assim as informações lingüísticas e sociolingüísticas terão uma compreensão mais profunda e diferenciada.


O palavrão é um fenômeno de linguagem revestido de tabu. Embora pertença à categoria gíria, desta se distingue porque tem caráter ofensivo, chulo, obsceno, agressivo e imoral. São formas inadequadas para a norma culta e mais comumente presentes na linguagem oral popular e coloquial.


O uso de palavrões nunca foi tão intenso e frenético como nos dias de hoje. Todavia, sabemos que seu emprego não é recente, há vocábulos que são conhecidos e usados há muito tempo, apenas o seu estudo de forma sistematizada que é recente. Esses estudos caracterizam o palavrão sob diferentes óticas, como sua semântica e etnologia, por exemplo. O palavrão por si só não basta para configurar a agressão verbal. Fatores como intencionalidade do ato de fala, entonação do enunciado proferido pelo falante, reação e interpretação do ouvinte são importantes para a identificação do palavrão. Veja, como exemplo, alguns trechos de música:


(....) Minha força não é bruta.
Não sou freira, não sou puta.
(Rita Lee)

Vai tomar no cú
Vai tomar no cú
Vai tomar no cú
Bem no meio do seu cú(Cris Nicolotti)
Marcelo, caralho
Enfia o pastelão no cú
Essa porra tá uma merda
Com esse copo de caju.
(Hermes e Renato)
.
Os palavrões são classificados em três categorias:
  • Pessoal: insulto com o objetivo de agredir o outro;
  • Ritual: insulto sem intenção de magoar o outro, mas com o propósito de chamar atenção para a pessoa e não para o significado do palavrão;
  • Solidário: insulto que marca proximidade entre indivíduos, tendo em vista que as expressões faciais e os gestos tanto do locutor quanto do receptor não deixam transparecer tenção durante o diálogo.
Embora a evolução da linguagem indique que o palavrão está sendo utilizado com mais permissividade em certos espaços sociais, ele ainda não é aceito e providências são tomadas para conter o seu uso. Ainda que se trate de textos ou obras escritas para adolescentes, os vocábulos vulgares são evitados, mantendo certa flexibilidade em relação a palavrões menos agressivo ou imoral. Os palavrões impossibilitam uma boa comunicação e enfraquece a capacidade argumentativa. Cabe à escola propiciar aos jovens um espaço para reflexão lingüística e prepará-los para momentos em que não poderão se comunicar de forma vulgar.


Podemos levantar algumas hipóteses sobre o que os professores sentem em relação ao palavrão em sala de aula, considerando que os vocábulos são chulos, obscenos e tabus.
  • Não se sentem confortáveis em tratar do palavrão na sala de aula;
  • Ignoram a presença do palavrão na sala de aula;
  • Não dão explicações sobre palavrão quando os alunos as solicitam;
  • Não reconhecem o palavrão como parte da língua;
  • Sentem-se impotentes diante do uso do palavrão em contextos onde não cabe a linguagem vulgar;
  • Sentem medo se abordar assuntos que geram polêmica.
Entendemos que a atuação dos professores para a solução de problemas em relação aos palavrões na escola é fundamental, tendo em vista que está ligado diretamente ao contexto social do aluno. A presença do palavrão na sala pode ser uma importante ferramenta para discutir os fatores sociolingüísticos que estão presentes na realidade dos alunos, afetando suas relações, valores e vivências. A escola tem obrigação de mostrar os outros caminhos que o aluno tem para se comunicar e os professores não devem se preocupar somente em abolir os palavrões, mas também incentivar a prática da norma culta, que ele irá utilizar no mercado de trabalho. Os alunos devem estar preparados para enfrentar esses desafios. Por mais que a escola acolha a linguagem que os educandos trazem de outros ambientes, ela é um ambiente educativo.


Este projeto foi desenvolvido mediante uma proposta apresentada pela coordenação da escola, que nos apresentou uma relação de temas voltada à sexualidade. Sendo assim, nosso foco será trabalhar os palavrões que envolvem a sexualidade e, ocasionalmente, palavrões que envolvem outros aspectos da linguagem cotidiana.
OBJETIVOS GERAIS:
  • Discutir o sentido ético da convivência humana nas suas relações com as várias dimensões da vida social;
  • Compreender a importância da linguagem sem ofensas e insultos nas relações sociais;
  • Adotar atitudes que vise resgatar valores como respeito e a tolerância, bem como valorizar o diálogo, a solidariedade e a justiça.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
  • Refletir sobre as maleficências dos vocábulos obscenos;
  • Relacionar os vocábulos aos seus significados de acordo com o contexto em que está inserido;
  • Reduzir o interesse pelos palavrões;
  • Reconhecer os palavrões (insulto) como um tipo de violência contra as pessoas;
  • Reconhecer atos de violência entre adolescentes;
  • Reconhecer a importância dos amigos, da esperança, do sorriso, do perdão, da tolerância e da coragem;
  • Expressar idéias, sentimentos, medos, opiniões;
  • Construir argumentações;
  • Opinar a partir de dados coletados, pesquisas;
  • Refletir sobre sua atitude em casa, na escola e em outros lugares;
  • Cooperar com os colegas;
  • Valorizar a linguagem;
  • Adotar atitudes de valorização das amizades;
  • Repudiar o preconceito e toda forma de violência;
METODOLOGIA
1. Primeiro momento: “Tempestades de idéias”
O professor motivará os alunos a apresentar uma definição para o termo palavrão. As respostas deverão ser escritas no quadro sem a necessidade de comentá-las
O professor distribuirá entre os alunos um texto que fala sobre o palavrão. Em seguida, eles deverão confrontar e discutir o texto com as informações escritas no quadro. O professor poderá pedir aos alunos que procurem no dicionário o significado das palavras que não entenderem.

Sugestão de textos

a) O que é palavrão?

Uma palavra de baixo calão, popularmente conhecida como palavrão, é um vocábulo que pertence à categoria de gíria e, dentro desta, apresenta cunho chulo, ofensivo, rude, obsceno, agressivo ou imoral sob o ponto-de-vista de algumas religiões ou estilos de vida. Palavras de baixo calão, ou simplesmente, palavrões, são formas inadequadas nanorma culta da língua portuguesa e geralmente usados de forma popularcoloquial, exceto por licença poética.
Do site Wikipédia

b) Palavrões: por que falamos?

Todos sabem o que são palavrões. Ao contrário das regras gramaticais, aprendemos palavrões e como usá-los sem precisar estudar e sem qualquer explicação. Mesmo crianças pequenas sabem que certas palavras são "feias", embora nem sempre saibam o significado delas. Mas palavrões não são tão simples como parecem ser. Nossos sentimentos a respeito disso são contraditórios: falar palavrões é um tabu em quase todas as culturas, mas em vez de evitá-los, como fazemos com outros tabus, nós os usamos freqüentemente. A maioria os associa à raiva ou frustração, mas eles são usados por vários motivos e em diversas situações. Imagine que você não pode se acertar com determinado oponente mais forte. O que faz, então? Chama um monte de palavrões antes de apanhar, literalmente muitas vezes! Xingar também satisfaz diversos objetivos em interações sociais. Além disso, seu cérebro lida com palavrões de forma diferente das outras palavras.
Daladier Lima
2. Segundo Momento:
O professor escreverá no quadro a palavra PALAVRÃO. Será distribuído aos alunos um pedaço de papel para que escrevam uma frase cujo tema é: “O que eu penso sobre o palavrão.” Todas as frases serão coladas em uma cartolina.
Nesta etapa, o professor deve conceituar palavrão e abordar temas como posturas, crenças, valores e tabus a ele associados. As categorias do palavrão (pessoal, insulto e solidário) também devem ser abordadas. Deve-se estar atentos para as eventuais dúvidas ou curiosidades.


3. Terceiro Momento: Coleta de dados
O professor entregará aos alunos um questionário de múltipla escolha.O questionário será elaborado de forma que o aluno reflita sobre como os palavrões o afetam individualmente e coletivamente.

Questionário 1: Grau de incidência do palavrão.
No seu dia a dia você escuta palavrões:
a) A todo instante
b) Com certa freqüência
c) Raramente
d) Nunca

Questionário 2: Local de maior incidência do palavrão.
O lugar em que você mais escuta palavrões é:
a) Na rua
b) Em casa
c) Na escola
d) Em casa de conhecidos

Questionário 3: Constatação da função do palavrão.
Geralmente o palavrão que você mais escuta é dito:
a) Por uma pessoa que xinga a si mesmo
b) Por alguém que xinga outra pessoa
c) Por alguém que xinga objetos e coisas que o cerca

Questionário 4: Constatação de quem mais pronuncia palavrão.
Quem você mais ouve falar palavrões?
a) Seus pais ou responsáveis
b) Alunos
c) Seus amigos
d) Desconhecidos que andam pelas ruas

Questionário 5: Significado do palavrão
Você já solicitou explicação sobre o significado de algum palavrão?
a) Sim, mas não fui atendido
b) Sim, e fui atendido
c) Não, nunca solicitei.
Após a coleta de informações, o professor criará com os alunos um gráfico contendo as respostas em forma de porcentagem. Em seguida, discutirá com os alunos os resultados apresentados, instigando-os para que eles se expressem sobre o mesmo, expondo suas opiniões e como encaram os dados obtidos. O gráfico poderá ser colocado ao lado do cartaz com as frases dos alunos.
4. Quarto Momento: “O Valor do perdão”
O professor conversará com os alunos sobre o perdão, a humildade que devemos ter em perdoar e pedir perdão. Ressaltar que o perdão é sinal de humildade e não de humilhação, e só as pessoas humildes são capazes de usar o perdão. Através da humildade conseguimos trazer para nós os amigos, fazemos as pessoas estarem perto de nós porque sentem prazer na nossa companhia, da nossa conversa. Com a humildade aprendemos a ouvir, a falar na hora certa sem ofender.


O ato de perdoar não está no simples fato de dizer “eu te perdôo”. O perdão é o esquecimento das ofensas, é não deixar as energias negativas que nos motivavam a vingança tomarem a nossa consciência induzindo-nos a praticar algo contra o ofensor. O perdão é, de consciência tranqüila, ignorar as falhas da pessoa que nos ofendeu ou magoou. Todos nós somos imperfeitos e cometemos falhas. Saber perdoar ou pedir perdão ou desculpas pelos nossos erros nos tornam pessoas mais preparadas para conviver em harmonia, pois ninguém gosta de relacionar-se com pessoas arrogantes e que não sabem reconhecer os seus erros.


É importante lembrar que o ódio, a raiva ou a vingança geram conseqüências para ambos os lados. Quem não sabe pedir perdão viverá num ciclo vicioso, uma vez que cometerá outras ofensas, que gerarão outras e assim por diante. Quem não sabe perdoar, esquecer as ofensas, também é prejudicado, porque vai carregar a mágoa e o rancor dentro de si, trazendo conseqüências à saúde mental, física e espiritual, inclusive doenças.


Na sala de vídeo, o professor exibirá alguns vídeos que falam sobre o perdão e o amor ao próximo. Se músicas forem trabalhadas, deve-se distribuir a letra da música para que os alunos possam ouvir, acompanhar ou até mesmo cantar.


O professor pedirá que os alunos façam uma reflexão sobre seus atos, momentos em que ofenderam colegas e amigos através de palavrões, agressões físicas ou verbais. Cada aluno escreverá um bilhete com pedido de desculpas ou reconciliação a alguma pessoa com a qual se desentendeu. Pode ser alguém da turma, de outra sala, um professor ou funcionário da escola. Junto ao bilhete será anexado um bombom. A resposta do destinatário não deverá ser por escrito e sim, através de um abraço ou aperto de mão, num momento de confraternização para finalizar este quarto momento.
5. Quinto Momento:
O professor motivará os alunos a montar uma dramatização que retrate o que aprenderam sobre o projeto. Os alunos deverão montar com a orientação do professor o roteiro da dramatização, a fala de cada componente e o cenário da apresentação. Este momento terá duas etapas: a elaboração do roteiro e a apresentação da peça, por isso, será o momento mais demorado, mas que poderá ser mais prazeroso que os outros. Para a apresentação, serão elaborados convites à equipe administrativa e pedagógica, professores e alunos de outras turmas.


AVALIAÇÃO:

A avaliação deve ser ampla, contínua e coerente com os objetivos propostos nas aulas. Ela abrange muito mais que “medir”. É a percepção do aluno em todos os seus aspectos, tais como, desenvolvimento de atitudes, aquisição de conceitos e domínio de procedimentos.
CONCLUSÃO
Se o estudo do palavrão é considerado pelos sócios-lingüistas como um trabalho de difícil realização, para os professores, o palavrão como conteúdo escolar não poderia ser diferente. O tabu e a estreita relação com a obscenidade fazem do palavrão um conteúdo a ser evitado no ensino de línguas. O professor que conseguir explicar aos seus alunos a função lingüística do palavrão é porque tem coragem suficiente para superar preconceitos e tem condições para convencer pais e outros profissionais da escola de quão importante é receber orientação para o uso adequado da linguagem.


Tendo em vista que o projeto tem como prioridade intervir sobre o uso de palavrões por alunos, será interessante verificar se essa maneira de se expressar tem sua origem no ambiente familiar. Em outras palavras, será que os alunos falam palavrões na escola porque eles os ouvem em casa? Por outro lado, a escola precisa agir e para isso deve contar com todos para frear o uso de palavrões entre os jovens, uma vez que parte da violência dentro da escola pode ter sua origem no palavrão, quando pronunciado para ofender o outro. Fazer um trabalho com os alunos para transformar a sala de aula em espaço livre de palavrões, poderia ser o início do trabalho de mais cuidado com a linguagem utilizada na escola.

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